
ste semestre iniciou-se com algumas comemorações, que me foram muito caras, e convergiram para o tema do Sacerdócio. No dia 3 de julho, celebrei 48 anos de Ordenação Sacerdotal, na própria cidade de Roma, onde fui ordenado, e onde me encontrava, naquela data, participando das festividades de abertura do Ano Paulino. Além disso, o mês de agosto, dedicado às vocações, trouxe-nos a comemoração do Dia do Padre, no primeiro domingo, seguida da festa do Padroeiro dos Párocos, São João Maria Vianney, no dia 4. Por todos estes motivos, permitam-me aprofundar algumas reflexões sobre a riqueza de ser Sacerdote.
Começo pela partilha das alegrias de comemorar mais um aniversário de Ordenação Sacerdotal. A celebração ocorreu na linda Basílica de São Bonifácio e Santo Aleixo, localizada no Aventino, e que, afetuosamente, chamo de “minha”, graças ao título que me foi conferido pelo Cardinalato: tenho a honra de ser Cardeal da Igreja Católica do título de São Bonifácio e Santo Aleixo, dois Santos que representam, para mim, modelos a seguir no Ministério Episcopal e na santidade de vida. O Padroeiro São Bonifácio foi um escravo romano que, após ter-se convertido, teria sofrido o martírio em Tarso, na Cilícia, no ano 307. Tornou-se, assim, conhecido como São Bonifácio de Tarso.
Santo Aleixo nasceu em Roma, no século IV, filho de uma abastada família cristã. Entretanto, abandonou a riqueza e a perspectiva de casamento para servir humildemente a Deus nos pobres, levando uma austera vida de penitência e de oração. Foi sepultado na Igreja de São Pedro, em Roma, mas seus restos mortais foram, mais tarde, transferidos para a Igreja de São Bonifácio.
Quando se fala de pobreza, ordinariamente, a palavra suscita rejeição. Porém, não se trata de sinônimo de miséria, mas da virtude evangélica da pobreza. Ser rico não significa possuir muito, mas deixar-se possuir, apegar-se às coisas da terra, inclusive à própria vida e a seus afazeres.
Jesus, porém, promete: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,3). Vemos que Ele trabalhou por quase 30 anos, e foi pobre até o final de sua vida. Trinta anos de trabalho silencioso. Ele, único Deus com o Pai e o Espírito Santo, Senhor do céu e da terra, se fez pobre para nos enriquecer com sua graça. Ensinou-nos a pobreza e a dedicação aos pobres e carentes em todos os sentidos: físico, moral e espiritual.
Ao longo destes meus 48 de sacerdócio, o que mais tenho pedido ao Senhor é o desapego das coisas da terra e, até mesmo, da própria vida. Mas, como é difícil! Somente com o auxílio da graça pode-se chegar a tamanha renúncia. Jesus deu a sua vida na flor da idade. E quantos Santos, como Teresinha, os mártires Tarcísio, Maria Goretti, a Beata brasileira Albertina Berkenbrock, deram a sua vida ainda jovens, no pleno desabrochar da existência. Não há vivência mais radical da pobreza!
Entregar a vida não significa, necessariamente, o martírio. Realiza-se, para a grande maioria dos fiéis, no acolhimento à vontade de Deus, assumindo as suas conseqüências. Toda vocação verdadeira está nesta mesma linha do acolhimento. O Sacerdócio nos questiona, pois não fomos nós que quisemos ser padres, mas Jesus mesmo nos conheceu e, nominalmente, nos escolheu. Fez o nosso coração para pertencer a Ele. E depois, a seu tempo, chamou-nos para o Ministério, seguindo seu exemplo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). É o que Ele pede aos seus eleitos.
O Sacerdócio exige de nós, portanto, que sigamos Jesus Cristo: “Quem me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). E por que Jesus quer que o sigamos? Exatamente, para conservá-lo presente entre nós, na Igreja. A um certo momento, após a Ressurreição, Ele subiu aos céus, e ninguém mais voltou a vê-lo na terra, tocar seu corpo físico ou ouvir sua voz. Sem essa presença visível e palpável, o mundo ficaria inconsolavelmente pobre. Então, Ele elege os Sacerdotes para representá-lo, isto é, agir in Persona Christi, fazendo com que Ele se torne novamente presente.
As formas dessa Presença se multiplicam, como na pregação da Palavra, que vem do Alto, passa pela nossa linguagem e se encarna no tempo e no espaço. Sua Presença também se faz nos Sacramentos, sobretudo na Eucaristia. Sacerdócio significa “dar coisas sagradas” (sacra dare, em latim). Esta é a grande tarefa de quem o Senhor constituiu como seu Ministro ordenado, através do qual Ele age.
Por ocasião das conversas que costumo ter com os jovens diáconos, prestes a receberem a Ordenação Sacerdotal, faço-lhes, entre outras, a seguinte pergunta: Por que você quer ser Padre? As respostas são as mais variadas e, freqüentemente, bem profundas. Se resumirmos algumas delas, observamos que esboçam o autêntico modelo do Sumo e Eterno Sacerdote.
Alguém me disse que queria ser Padre a fim de celebrar a Eucaristia para o povo, outro para evangelizar esse povo, outro, ainda, para acolhê-lo. Sempre arremato com um esclarecimento: Povo de quem? Sim, povo de Deus! O povo não pertence ao Padre, foi-lhe confiado pelo único verdadeiro Pastor, Jesus Cristo. O Padre é a resposta da misericórdia de Deus para o seu povo.
Também me foi respondido: Quero ser uma cópia, um prolongamento do Cristo, que veio ser o Caminho. Para onde eu for, no meu Sacerdócio, quero que outros me possam seguir. Quero lhes trazer a Verdade e a Vida, a Vida plena do Espírito e a vida humana mais digna, com ações que possam promover essa dignidade.
Uma das respostas mais inusitadas foi a de um candidato que declarou querer ser Padre para sofrer. Considerei-a imprópria, a princípio. Mas compreendi que ele se referia a imitar Cristo na cruz, para dali haurir os frutos da Redenção, oferecendo-os, pelo seu Ministério, ao povo de Deus.
O Servo de Deus João Paulo II, numa de suas mensagens anuais aos Padres, na Quinta-Feira Santa, diz o seguinte: “Vocês são o Coração de Cristo”. Ora, o Coração de Cristo bate de acordo com o ritmo divino, e perfeitamente humano. Para imitar isso é preciso, primeiramente, estar em Deus. E é preciso ter uma humanidade muito cultivada, muito sensível, quase que empática, que saiba vibrar e, também, chorar com os outros.
Imagino o Sacerdote como uma rocha em alto mar. Nela vão quebrar-se as vagas do sofrimento e do mal, que assolam as pessoas. A resistência da rocha faz recuarem as ondas, até que voltem, serenas, para a praia da vida cotidiana. Nenhum de nós tem em si esta força, mas é de Cristo que a recebemos, como seus representantes e instrumentos junto ao povo fiel. Como diz São Paulo: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).